Reprodução
Uma história emocionante e bem detalhada da Ariane sobre como ela escapou das enchentes em Lajeado junto com a irmã e seu bebê, e como foi o desenrolar da decisão até a fuga, mais o que aconteceu com o porteiro, que a aconselhou a sair “AGORA” caso quisesse escapar da calamidade, mas que ficou e arrombou as portas de quem não estava em casa pra salvar itens dos vizinhos, já que as águas subiram a um nível assustador, viralizou.
Leia história, que já alcançou 6 milhões de visualizações:
Tudo começou com ela hesitando sair, pois morava no quinto andar:
Do alarme de incêndio do prédio, recém instalada – "Ih, Ariane, isso é caro"
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Eu segurei a lâmpada de emergência que ele usava de lanterna pra ajudar e comentei "mas nem chega nessa altura, Joir"
Ele disse que também achava que não
Mas por via das dúvidas…
Eu olhei a água,
Aqui ela ouve uma opinião decisiva do Joir e leva um choque de realidade:
Antes sobre o nível da água.
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
As lojas no térreo e os dois primeiros aptos (o 001 e 002) foram esvaziados, por precaução
A subsindica queria esvaziar também os apartamentos em cima daqueles (101 e 102) por via das duvidas e o síndico achava que ela estava gerando pânico a toa
Eles nem conceberam que poderia chegar tão alto:
cobri-las, parcialmente apenas.
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
E isso na "pior cheia de todas"
"A Ilzete ta com medo, mas para a água chegar no 101-102, só se Lajeado já estiver submersa. Pra pegar enchente ali, Estrela inteira já foi, Arroio do Meio já foi, ih, acabou tudo"
Errado ele não estava.
meia hora pra me organizar e ele fez cara de que talvez nem isso.
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Subi contendo os muitos lances de escada e perguntei pra minha irmã, de 18 anos, se a gente saía ou ficava.
Era uma trovoada medonha lá fora e as ruas laterais ao prédio e a garagem já estavam com água
– pq ainda tem o bebê – presa no prédio.
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Arrumamos uma mochila rápida para a decisão tomada as pressas. Rápida não, absurdamente rapida e apavorada. Eu nem sei o que pus naquela mochila. Muitos pares de calça para o bebê. Nenhuma meia. Blusas pra mim. Nenhuma calcinha.
A água estava acima do meu joelho.
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Meu bebê estava preso em mim com um canguru
Nas minhas costas uma mochila pesada e gigante. Em uma mão uma sacola de compras pesada com água e ração. Na outra o guarda chuva. Eu tava toda tomada pra atravessar aquela agua com segurança.
Eu passei erguendo os pés do bebê. Minha irmã com sua mochila. E ele fez duas viagens carregando no colo o cachorro em uma e na outra as bagagens. No meio do caminho perdi meu chinelo, estourou.
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Eu saí assim pela cidade, cheia de carga, com um peso muito maior do que consigo
O síndico ficou no prédio. Ele e mais cinco
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Não pq fosse irresponsável, não pq estivesse ignorando qualquer aviso, mas pq a gente mora em uma rua que não alaga. Pq a água, quando muito, chegaria no apto 01, mas jamais no 101.
Ela chegou até o 202.
Só parou no 203.
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
A casa do síndico era o 103.
À medida que a água ia subindo, os cinco do prédio foram ARROMBANDO as unidades inferiores onde ela iria entrar para tentar SALVAR as coisas dos vizinhos que haviam saído do prédio
Isso mesmo, nessa situação de desespero,
Tinha um colchão de bebê no apartamento, do seu filho, e usou como balsa para transportar boiando os bens dos vizinhos. Eles colocavam os itens em cima e empurravam para o corredor, onde outros içavam o colchão para os níveis mais altos
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
O filho de uma vizinha se cortou no braço
Os barcos eram insuficientes e ninguém conseguia ligar
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Eles não tiveram escolha além de seguir presos no prédio, passar a noite ali, fugindo da água e subindo o que podiam, cada vez mais alto
Quando o rio passou de trinta metros, só tinha dois andares de fora.
Na penumbra, vendo a água subir, com um rapaz com o braço cortado do lado
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Felizmente a água não subiu até os 40m.
Nós não sabíamos que eles estavam retirando coisas dos apartamentos atingidos. Eles fizeram isso sem nem ter como se comunicar com o mundo. Quando puderam avisar
Na casa do meu amigo eu estava sem meus remédios de uso contínuo, que esqueci na pressa, pensando como fazer pois não posso ficar sem eles, correndo atrás de receita (no apocalipse) de notícias (no apocalipse) de água potável (no apocalipse)
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
A pouca água que levei comigo ficou
No meio disso tudo, meu marido estava na cidade vizinha quando começou o problema
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Não é como se tudo isso tivesse levado dias. Foram poucas horas. Ele saiu pra trabalhar num dia normal de terça-feira como todas as terças são, mas não conseguiu voltar.
E a não tentar voltar. Ele disse que dormiria lá.
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
No dia seguinte foi quando a água atingiu o nível máximo. Deslizamentos por todo lado, nenhuma rota era segura. A enchente carregou pontes e estradas
Eu morria de medo dele ter levantado de manhã naquela quarta e decidido
Eu tinha crises de choro e meu bebê, mesmo sem saber o motivo do choro, mas de algum jeito adivinhando, me fazia carinho e dizia "papai tá bem"
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Naquela quarta eu fui dormir agarrada na nossa filha e o cheiro dela era igual ao dele e entrei em pânico
Eu fui ter notícia do meu marido 2 dias depois. Felizmente a salvo.
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Aliás desde a enchente eu experimento choro, uma dor de cabeça que não passa, tremores por todo corpo e CULPA
Pq tem "gente muito pior do que eu e no final eu não perdi nada"
Que desconsideram o BÁSICO da humanidade: que ninguém "merece" ficar preso em um corredor escuro acuado pela agua; ninguém merece perder a vida ou os entes queridos; ninguém merece ter de lutar por água potável
— Ariane (@arianedocarmo) May 9, 2024
Sinto muito por tudo isso. Espero e desejo que se normalize tudo em breve e que vocês – todos os gaúchos – reencontrem a paz. Passamos por isso aqui no ES, em Mimoso do Sul. É enlouquecedor.
— Adalgiza (@GizaGobbi) May 9, 2024