#CelularDoJuarezSemFreio

Como disse para vocês, leitores d’O Bairrista, o objetivo deste blog, também, é aproximar o cidadão comum de uma estrela do futebol mundial, no caso eu. Por isso resolvi transcrever uma conversa telefônica que tive recentemente. Para preservar a privacidade de quem me ligou, usarei apenas as iniciais, assim ninguém descobrirá.

Juarez – Alô, tudo bem?
G.L. – Alô, Juarez! Que saudades, meu velho amigo!
Juarez – Agora tu tens saudades, né? (Resmungos)…
G.L. – Tu sabes que tu moras no meu coração. E no coração de toda a nossa torcida. A coisa ficou feia sem tu aqui…
Juarez – Eu notei… A chapinha esquentou, né? (Risos)
G.L. – A chapinha já queimou. Final do ano iremos devolver por defeito de fabricação hahahahaha

(BREVE PAUSA)

Juarez – Poisé, e pensar que vocês me mandaram embora no banheiro. Foi a maior cagada que tu fizeste, presidente.
G.L. – Esquece isso… Foi coisa do R.S…. São águas passadas, Juarez.
Juarez – Águas passadas da descarga, né? (RESMUNGOS)… Mas enfim, o que mais me conta, amigo? E a obra, como está?
G.L. – Ta uma merda, Juarez. Uma merda! Tu sabe como é reforma… e esses caras da A.G. destruíram o estádio. A torcida não quer mais ir… é barro pra todo lado…
Juarez – Eu vi, amigo. No último jogo tinha mais pedreiro que torcedor no B.R. (Risos)…

(SUSPIROS CHATEADOS DO OUTRO LADO DA LINHA)

G.L. – Mas Juarez, o motivo de eu ter ligado é outro…
Juarez – Podes falar, G.
G.L. – A situação política aqui não está das melhores, tanto que eu vou concorrer de novo na eleição… mas a oposição vem forte…
Juarez – Sim… e?
G.L. – Eu quero lançar uma candidatura matadora. Quero conquistar o associado. Quero ganhar com pompa essa eleição. E pra isso eu conto contigo!
Juarez – Comigo, presidente? O que eu poderia fazer pra ajudar o amigo?
G.L. – Quero te colocar como carro chefe da minha campanha. A torcida te ama. Contigo eu não perco por nada!
Juarez – E como seria isso?
G.L. – A gente assina um pré-contrato. Tu assume o time em Janeiro. Eu divulgo esse contrato e a eleição está ganha… Que achas? VOLTA, JUAREZ!

Bom, o resto da conversa eu prefiro não adiantar para vocês, mas nunca se esqueçam: o celular do Juarez é sem freio e, tal qual Jesus, JUAREZ BREVE VOLTARÁ!

19 OCT 2012

O dia em que perdi a cautela.

Precisei criar muita coragem para escrever esse post. Não é fácil tocar em feridas do passado. Todos temos algo que nos envergonha.

Lembro-me como se fosse hoje. O ano era 1998, o mês, dezembro. Dia 19. Eis uma data que não gosto de recordar: 19/12/1998.

1998 tinha sido um ano especial para mim. Fora o ano em que coloquei Ronaldinho na reserva do Itaqui. Uma ode à cautela que ser humano algum, exceto eu, estaria apto a fazer. E o melhor: Itaqui tinha sido destaque do campeonato naquele ano. Quem não lembra do gol de falta contra o Corinthians?

Eu estava envolto em uma névoa de cautela e sucesso. O sucesso, por vezes, é perigoso. Eu tinha colocado aquele que seria eleito duas vezes o melhor do mundo na reserva de um desconhecido volante e o time havia melhorado. Um volante era melhor que o melhor do mundo. O mundo sorria para mim. Nada podia me parar.

Então veio o fatídico dia. Dezenove de dezembro de mim novecentos e noventa e oito, um sábado ensolarado. Eu estava de férias em Xangri-lá, litoral gaúcho. Lembro-me que nos dias anteriores todos me saudavam nas ruas. Diziam-me, sorrindo e contentes, que Itaqui era melhor que Ronaldinho. Exaltavam o grande trabalho que havia feito à frente do Grêmio naquele ano. Eu era o melhor. Nada podia me parar.

Era manhã do dia 19. Liguei o rádio para ouvir a previsão do tempo, enquanto abria minha janela e observava o sol, imponente, aquecendo e dando luz à bela paisagem. A voz no rádio dizia: “mínima de 27 e máxima de 34, umidade do ar em torno de 70% e possibilidade de chuva, 2%”. Mais um belo dia para caminhar e curtir minhas férias, e o melhor, sem chuva, pensei eu.

Saí de casa tranqüilo, levando comigo apenas o protetor solar e alguns trocados no bolso. Por um momento cheguei a pensar em levar o guarda-chuva. Besteira, 2%??? Seria mais um belo dia à beira do mar!

E assim foi. Um belo dia de sol regado por chopp gelado e belas gaúchas para serem admiradas à beira mar. Às 20h o sol ia se pondo, e eu, como um bom cauteloso, voltava para casa. Alegre, realizado, um belo dia de descanso merecido para um magnífico treinador. Então, meu mundo desabou.

Senti um pingo de água cair em meu ombro. O relógio parou. Olhei para o céu. Pasmo. Atônito. Perdido. As nuvens que surgiram do nada pareciam rir de mim. Um trovão. Minhas pernas ficaram bambas. Meu bigode arrepiou.

Chovia. Chovia muito. Como justamente eu, o mais cauteloso dentre os seres humanos, havia ignorado a possibilidade de DOIS POR CENTO de chances de chuva e havia saído de casa sem ter o que me proteger em uma eventualidade??? A imagem do guarda-chuva piscava em meus pensamentos. Como pudera? Como eu??? Como justamente eu???

Os pingos de chuva caíam sobre mim. A água escorria pelos fios do meu bigode como lágrimas de vergonha. Todos me olhavam perplexos. Todos na rua pensavam: “como justamente o Juarez saiu de casa sem o seu guarda-chuva”. As pessoas esfregavam os olhos para se certificarem do que estavam vendo.

Um cauteloso envergonhado. Um cauteloso sem cautela. Um cauteloso jogado ao mundo como apenas mais um em meio à multidão de desavisados. Uma cena dessas poderia ocorrer com qualquer um, mas eu tinha uma reputação a zelar. ISSO NÃO PODIA ESTAR ACONTECENDO. NÃO COMIGO. POR QUE, DEUS???

Voltei para casa triste, humilhado, com minha moral aos pedaços. Nada podia ser feito, a não ser aprender. Quatorze anos se passaram e lembro desse famigerado dia como se fosse hoje. Um cauteloso sempre desconfia. Deixei-me levar pelo sucesso do momento e por apenas um segundo de falta de cautela pus em risco toda a minha reputação.

Assim é a vida. Errem, mas aprendam com seus erros da mesma forma que eu aprendi.

Desde então, nunca mais saí de casa sem o meu guarda-chuva.

04 OCT 2012